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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Neonicotinóide = IGR (juvenóide) ???

Prezados(as),

Estive lendo algumas discussões feitas pelo nosso ilustríssimo colega Constâncio em seu blog acerca do prazo de garantia dos serviços de controle de pragas urbanas. No apagar das luzes de fevereiro resolvi reservar uns minutos para escrever sobre o assunto.

Mas acabei neste momento de mudar a intenção sobre o que eu iria escrever, porque agora mesmo estive olhando os textos do colega para procurar os links e colocar neste post, e encontrei algumas coisas interessantes, como a retomada da controvérsia do uso de feijões crus como raticidas, que creio que há alguns anos atrás tenha já sido muito bem desmitificado pelo próprio Constâncio, a quem admiro pelo conhecimento que tem e volta e meia estou lá lendo o que ele escreve. Na ocasião, a história desmascarada dos feijões foi espalhada na web por uma profissional da área que também é bastante respeitada e conhecida dentro do setor. Eu mesmo já comentei também dois posts sobre os feijões.

Pois desta vez acabei “tropeçando” sem querer num deslize do colega a quem admiro. Sei que ninguém está livre de cometer enganos – e espero que eu não cometa nenhum tão cedo – , mas acho importante que haja também um espaço para esclarecimentos, assim como foi feito na ocasião dos ratos e feijões.

Um post chamado “Extra! Extra! Lançados mais dois produtos desinfestantes no mercado brasileiro” (link ao final) fala sobre o lançamento de dois produtos “recém” lançados no Brasil para controle de pragas urbanas – as aspas no recém se devem ao fato de que um deles já foi lançado na Expoprag no ano passado, e o outro, embora não estivesse sendo produzido ainda, também teve um pré-lançamento na feira (ver ao final link para post sobre Expoprag).

Embora eu não tenha tido a oportunidade de experimentar os dois e poder tecer comentários, diferentemente do Constâncio, já tive o privilégio de testar um deles em primeira mão – o Tenopa, da Basf – na minha própria casa e posso dizer que o resultado foi muito bom.

Mas o esclarecimento que eu gostaria de fazer é outro: o colega cita que ambos associam um piretróide a um regulador de crescimento (IDI). Essa afirmação é correta para o produto que eu testei, mas é incorreta para o outro (Temprid, da Bayer), simplesmente porque o Imidacloprid, do grupo dos neonicotinóides, não é um regulador de crescimento, e sim um adulticida, assim como os piretróides, só que de outro grupo químico.

Sei disso porque conheço razoavelmente bem outra molécula do mesmo grupo, o Thiametoxam, e o modo de ação de ambos é muito semelhante. Talvez o engano tenha ficado por conta de que algumas indicações no registro de alguns produtos deste grupo químico existentes no mercado tenham indicação para formas adultas e também larvas de certos insetos. Mas isso não quer dizer obrigatoriamente que o produto seja um juvenóide (ou IGR, ou regulador de crescimento), afinal, piretróides também eliminam formas jovens de insetos em determinadas fases (ex.: larvas ou ninfas) e nem por isso são considerados reguladores de crescimento.

Espero não causar chateações com este post, visto que continuo admirando as pessoas que sempre admirei e que de alguma forma me trouxeram mais conhecimento sobre esse tema fascinante de Controle de Pragas Urbanas. Sigo admirando o Constâncio, da mesma forma que admiro outros professores nessa área, tais como Ricardo Matias, Levi Garcia e também o meu pai, que foi quem me deu os primeiros passos na vida e no Controle de Pragas Urbanas. Todos são meus professores, a ao contrário do que o senso comum esperaria, quanto mais aprendo, mais professores conheço. E assim vamos evoluindo. Desculpem por não ter falado sobre garantia dos serviços, que era o tema original, mas isso fica agora para março. Creio que será uma discussão bem interessante e que devemos refletir sobre como (ou se) isso irá impactar em nossas empresas.

Seguem abaixo os links prometidos:

Links sobre feijões:

Não acredite em tudo o que ouvir (feijões mágicos)
Novamente sobre feijões
Links sobre Expoprag 2010:
Expoprag 2010 - comentários gerais
Link para o post do Constâncio:
Extra! Extra! Lançados mais dois produtos desinfestantes no mercado brasileiro!
Sendo assim, despeço-me já bolando os escritos para o mês de março…

Um grande abraço a todos e bons negócios!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Juvenóide? Que bicho é isso?

Inseticidas juvenóides são produtos que, como o próprio nome diz, atua sobre as fases jovens dos insetos. Também são conhecidos como IGR (Insecticides Growth Regulators - inseticidas reguladores de crescimento).

Os inseticidas comuns são geralmente considerados adulticidas, ou seja, atuam nas fases adultas dos insetos, e normalmente também, nas fases de larva, quando estas estão presentes no ciclo. É o caso, por exemplo, da mosca e da pulga. No caso estes insetos possuem ciclo completo: ovo, larva, pupa e adulto.

Outros já saem dos ovos em sua fase jovem, apenas crescendo e se desenvolvendo até chegar à fase adulta, sem sofrer metamorfose, mas sim ecdises, que é o nome dado às mudas de "casca" dos insetos. A medida em que vão crescendo, o exoesqueleto, que é esta "casca" feita de quitina, vai ficando apertada. Para continuar se desenvolvendo, eles precisam abandonar este exoesqueleto apertado e formar um novo, que permita o seu crescimento.

Por exemplo, as baratas, no caso dos insetos, e os carrapatos, no caso dos aracnídeos. Ambos são considerados de ciclo incompleto, pois não passam pelas fases de larva e pupa. Nestes, o que sai do ovo já é uma forma jovem (também chamada de ninfa), que vai crescendo e se desenvolvendo com o passar do tempo. Nestes, o adulticida age com mais facilidade em praticamente todo o ciclo, visto que na maioria dele o inseto está exposto à ação do inseticida.

Então os inseticidas adulticidas agem sobre formas jovens (ninfas ou larvas) e adultos. E os juvenóides, sobre as formas jovens (ninfas, larvas) e pupas. Dizem alguns que o juvenóide atua um pouco sobre os adultos também, não matando, mas fazendo com que tenham problemas para se reproduzir. Outros também dizem que atua sobre os ovos, assim como também já ouvi que estavam sendo divulgados estudos comprovando a atuação da lambdacialotrina (adulticida) em ovos. Mas como todo mundo comenta isso em off mas ninguém até agora comprovou nada, é melhor considerar que são possibilidades ainda não confirmadas.

Mas como esse tal juvenóide funciona?

O juvenóide de que estou falando inibe a formação de quitina no inseto, que é a substância que forma o exoesqueleto, a "casca" que o protege. Sendo assim, ele age diminuindo suas proteções naturais, durante as fases jovens (ninfas e larvas) e também na formação da pupa.

Um carrapato, por exemplo, desde a eclosão do ovo até o atingimento da fase adulta, sofre sucessivas ecdises (troca do exoesqueleto para acompanhar seu crescimento). O juvenóide não permite que se forme uma nova camada de quitina.

Já em insetos que possuem ciclo completo, ele faz com que o corpo da larva fique muito mole e acabe explodindo. Tive acesso também a um artigo [1] que avaliava a eficácia de um IGR no controle do mosquito da dengue, e que indicava os maiores percentuais de mortalidade nas pupas.

Mas então, se esse "troço" é tão bom, porque todo mundo não usa ele?

Bom, um dos principais motivos é que esse "troço" não é muito conhecido. Mas também tem outra razão: geralmente os produtos juvenóides são mais caros, quando geralmente o uso do inseticida adulticida por si só já é suficiente para efetuar o controle, porém a associação do adulticida com o juvenóide daria uma resposta mais rápida em situações mais críticas em termos de controle. Em contrapartida, geralmente a dosagem necessária costuma ser baixa, em comparação com a maioria dos adulticidas.

Então, acaba sendo, como sempre, uma questão mais estratégica. Na vistoria prévia devem ser avaliados o tipo de praga, o ambiente, as condições de higiene, entre outros, para estabelecer a melhor estratégia de controle.

Por exemplo, em situações de baixa população de pragas de controle relativamente fácil de ser resolvido com um inseticida adulticida comum, eu não vejo a necessidade de usar um juvenóide. Porém em altas infestações de pragas como pulgas, bicho-do-pé e carrapato, em áreas sujas ou arenosas, o juvenóide associado ao adulticida atuaria sobre praticamente todas as fases de desenvolvimento, tornando o controle populacional mais rápido. E nos casos destas pragas, em que seria necessária uma segunda aplicação, é bem provável que esta não precise do juvenóide, apenas do adulticida para fazer a manutenção do controle.

Vale ressaltar que o objetivo do juvenóide não é ser usado sozinho, mas associado a um adulticida eficiente, quando se entender que o juvenóide deve ser usado.


Importante: O juvenóide, por atuar sobre a formação de quitina, não deve ser aplicado em ambientes que tenham a presença de crustáceos, tais como água do mar ou rios que desemboquem no mar.

Semana que vem tem mais!

Abraços e bons negócios!

[1] RESENDE, Marcelo; GAMA, Renata. Persistencia e eficácia do regulador de crescimento pyriproxyfen em condições de laboratório para Aedes aegypti. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 39, n. 1, jan-fev 2006, p. 72-75. Disponivel em http://www.scielo.br/pdf/rsbmt/v39n1/a14v39n1.pdf